Nada Mudar Para Que Tudo Seja Diferente:
Conversa com Beyond Entropy

Changing Nothing so That Everything is Different:
Conversation with Beyond Entropy

publicado na Arte Capital, Agosto 2013
Arte Capital PT Arte Capital EN
English version below

Beyond Entropy trabalha com o conceito de energia para a produção de novas formas de prática espacial. É dirigido por Stefano Rabolli Pansera, arquitecto italiano, sediado em Londres. Os projectos de África são co-dirigidos por Paula Nascimento, arquitecta angolana, que estudou e viveu em Londres por mais de uma década, antes de regressar a Luanda. Stefano e Paula fizeram a curadoria da exposição Luanda Encyclopedic City, premiada com o Leão de Ouro na 55.ª Bienal de Veneza (1 de Junho a 24 de Novembro de 2013).

[A conversa ocorreu em Julho de 2013, entre Lisboa, Porto, Luanda e Londres.]

Em primeiro lugar, parabéns pelo Leão de Ouro na Bienal de Veneza. Gostaria de começar por falar sobre a formação de Beyond Entropy (B/E). Qual o âmbito e quais os objectivos do projecto?

SRP: Beyond Entropy foi criado em 2009, como parte da Architectural Association (AA), em Londres. Na época, estava a dar aulas e estava interessado em explorar um tema específico: a energia. Acredito que esta é uma questão central no discurso arquitectónico contemporâneo, mas muitas vezes arquitectos reduzem o conceito de energia a um problema técnico: as emissões de CO2, energia verde, painéis solares, etc. Eu estava interessado em energia para além da retórica da sustentabilidade. Queria criar um cluster interdisciplinar, colaborar com artistas, cientistas e arquitectos, para criar protótipos para uma nova compreensão espacial do conceito de energia.

Participaram na Bienal de Arquitectura de Veneza de 2010 e, em seguida, na Trienal de Milão. Como é que um think-tank passa a estar presente em eventos tão importantes?

SRP: O cluster de investigação foi um empreendimento enorme. Visitámos a CERN, em Genebra, participámos no Festival de Energia de Lecce e organizámos palestras e simpósios em Londres. Todos os participantes envolveram-se profundamente e eu queria oferecer-lhes uma plataforma para poderem expor as suas pesquisas num palco maior do que o da estrutura académica da AA. Decidi candidatar o projecto como evento colateral na Bienal de Arquitectura de Veneza de 2010. Os trabalhos que desenvolvemos foram muito ambiciosos e imprevisíveis: eram protótipos entre obras-de-arte, modelos arquitectónicos e experiências científicas... Eram invenções brilhantes para entender a relação entre Energia e Espaço, com novos olhos. A exposição foi muito bem sucedida e fomos convidados para expor na Trienal de Milão, no ano seguinte.

Enquanto isso, B/E expandiu-se para diferentes regiões. O que motivou a redefinição do projecto? Como é estruturado?

SRP: Após a exposição na Trienal de Milão, eu queria separar Beyond Entropy da escola e transformá-lo numa agência espacial independente. De certa forma, foi uma progressão natural. Hoje, Beyond Entropy opera na Europa, no Mediterrâneo e em África: B/E Europa concentra-se na dissolução da distinção entre a cidade e o campo, numa paisagem entrópica e uniforme; B/E Mediterrâneo centra-se na ocupação bipolar da costa do Mediterrâneo, alternando constantemente entre a protecção e exploração turística, entre a restrição da vida urbana e a sobrelotação do turismo sazonal; B/E África concentra-se na morfologia da cidade africana, onde enormes conurbações urbanas são construídas e ocupadas, apesar da falta de infra-estrutura básica. Em cada território, propomos um novo modelo espacial na forma de um edifício ou infra-estrutura, exposição, publicação, etc...

PN: É importante realçar o aspecto geo-político dos projectos. Beyond Entropy gradualmente estabeleceu-se como uma rede internacional. Começámos a pesquisar Luanda como o paradigma das extraordinárias transformações urbanas a acontecer actualmente nas cidades sub-saarianas. Desde o ano passado, temos vindo a desenvolver esta pesquisa, apoiada por vários projectos de exposições...

...Incluindo a Bienal de Arquitectura em 2012. Como é que um projecto tão jovem ganha reconhecimento institucional tão rapidamente, tornando-se a primeira representação oficial da República de Angola em Veneza?

SRP: A Paula e eu conhecemo-nos em Veneza, em Setembro de 2010, durante um seminário organizado pela AA. Eu tinha acabado de completar a exposição “Beyond Entropy, when Energy becomes Form” na Fondazione Giorgio Cini. Durante uma conversa nos belos jardins da ilha de San Giorgio, decidimos organizar a primeira participação de Angola na Bienal de Veneza.

Sim, mas como conseguiram apoio oficial, financiamento, etc.?

PN: Eu diria que temos sido implacáveis, acima de tudo. O Stefano e eu discutimos potenciais projectos e rotas a perseguir, e daí surgiu um claro interesse em Luanda e nas suas características mutantes. A esse ponto, começámos a desenvolver um projecto para Angola e – por que não? – uma participação oficial. Foi muito importante enquadrar a proposta de tal forma que as autoridades angolanas – neste caso, o Ministério da Cultura – conseguissem entender por que seria importante para Angola ter um Pavilhão Nacional na Bienal.

Como convenceram o Ministério?

PN: Se Angola aparece nas notícias por causa do seu crescimento económico, por que não expandir a sua presença em eventos de tão alto calibre cultural, especialmente tendo em conta a força da sua produção contemporânea? Ao exportar cultura ao mais alto nível, estamos também a fazer um statement sobre uma jovem nação que não se trata apenas de petróleo e dinheiro, mas que tem algo mais para exportar.

Então, como conseguiram pôr isso em prática?

SRP: Após uma estimativa inicial da logística e do orçamento geral, reunimo-nos em Luanda, em Novembro de 2011 e, graças ao embaixador italiano Giuseppe Mistretta, tivemos uma reunião com a Ministra da Cultura de Angola...

PN: O Ministério considerou o projecto, mas demorou quase meio ano para nos dar permissão para participar como um Pavilhão Nacional. Foi um processo de negociação complexo – e, de facto, estamos gratos pela ajuda extraordinária da Embaixada Italiana, e da Embaixada de Angola em Roma. Por fim, recebemos uma carta a confirmar a primeira participação de sempre de Angola e Beyond Entropy como curadores.

Como procederam a seguir?

PN: Em paralelo a este longo processo, fizemos propostas de colaboração a universidades locais e, naquela altura, apenas uma – a Universidade Metodista de Angola – pareceu interessada na ideia que apresentámos. Ao mesmo tempo, começámos a angariação de fundos. Tivemos patrocínios privados de empresas angolanas e italianas, e também tivemos de investir algum do nosso dinheiro pessoal, para desenhar e construir a instalação.

O projecto apresentou uma abordagem de Luanda que é muitas vezes negligenciada na arquitectura e nos estudos urbanos. Reconheceu os problemas infra-estruturais da sua complexa malha urbana, mas também entendeu as suas qualidades. Podem descrever o modelo que propuseram e reflectir sobre o impacto que tal modelo poderia ter?

SRP: Desenvolvemos uma investigação inicial no Cazenga, com um grupo de estudantes da Universidade Metodista. Foi uma experiência maravilhosa, tentar entender como o espaço é lá vivido e habitado. Cada espaço realiza simultaneamente uma multiplicidade de funções: cada casa é simultaneamente escritório, armazém, garagem, espaço público... Propusemos preservar essa qualidade. Sugerimos uma proposta que actua simultaneamente como espaço público e infra-estrutura, usando uma planta chamada Arundo Donax, um arbusto cujas raízes filtram naturalmente águas sujas e cujo tronco contém filtros que são ideais para a produção de biomassa.

PN: A proposta é uma crítica à noção de requalificação tal como está a ser implementada em Luanda, uma cidade que é caótica mas ainda assim emblemática, em muitos níveis. Luanda está a mudar e a crescer muito rapidamente, e entre condições extremas: por um lado, uma cidade planeada de acordo com modelos chineses e norte-americanos e por outro lado, uma cidade informal, a crescer organicamente nos espaços intersticiais; e depois, também temos a cidade colonial, que está a ser lentamente apagada... A nossa proposta negoceia, de alguma forma, entre estas realidades.

Estás a levantar muitos tópicos interessantes. Estou interessado na metodologia que seguiram, pois eu sei que não é fácil trabalhar nas áreas “esquecidas” de Luanda. Podem falar um pouco mais sobre os workshops com os estudantes?

PN: Depois de algumas reuniões com a administração local e os directores da Universidade, começámos uma semana de workshop com estudantes do 4.º e 5.º ano, no Cazenga. Inicialmente, visitámos o bairro para compreender os seus contrastes e complexidades, e para fazer com que os estudantes se envolvessem numa realidade que muitas vezes é sub-representada ou “esquecida”, como disseste. Mais tarde, os estudantes escolheram quatro edifícios e examinaram-nos em detalhe, quase como uma investigação forense de cada espaço, olhando para os detalhes construtivos, os hábitos de vida, a passagem do tempo, desenhando tudo, entendendo a inteligência espacial que existe e que é muitas vezes ignorada. Além desta experiência ao vivo, conseguimos receber alguns dados por parte das autoridades locais, o que nos ajudou a moldar uma imagem do bairro. Quase simultaneamente a este trabalho de campo, fizemos pesquisas sobre as propriedades e o uso de Arundo Donax.

O conceito parece absolutamente adequado ao contexto. Como é que a exposição foi recebida em Angola e em outros lugares?

SRP: Houve um interesse extraordinário no projecto, tanto pelo mundo da arquitectura como pelo mundo da arte. Por exemplo, fomos convidados por Bice Curiger para escrever um artigo na Parkett e tivemos a oportunidade de ampliar a pesquisa com uma exposição no Porto [Luanda de Baixo P’ra Cima].

PN: Honestamente, não conseguimos muito escrutínio e visibilidade em Angola, para além de boa receptividade na Universidade. Internacionalmente, porém, a conversa já foi diferente. O facto de Angola estar a participar pela primeira vez na Bienal, num local tão especial – Isola di San Giorgio – chamou muita atenção. Eu acredito que as ideias por detrás do projecto e o facto de ter oferecido uma potencial solução para um problema real, criou uma agenda para discutir a cidade.

Estes são, de alguma forma, temas controversos no contexto de Angola, onde as estratégias actuais de regeneração urbana dão pouca atenção a uma cidade que já lá está, em favor de outra coisa. Quais foram as reacções mais comuns que receberam?

PN: As opiniões, por vezes, reduzem o projecto a uma pesquisa puramente académica, mas eu acho que essa perspectiva está errada. É óbvio que o objectivo da instalação era comunicar o conceito e fazer uma declaração ousada, mas acreditamos na implementação do projecto, o que exigiria ajustes e uma exploração mais profunda do local. Acho que é um projecto a ser revisitado. Vamos apresentar o projecto em Luanda, no final do ano, e estou muito curiosa para ver como a sociedade de Luanda irá reagir.

Vamos ficar no presente, por agora. Os leitores querem saber sobre o Leão de Ouro! É muito claro que Luanda Encyclopedic City surge como parte do vosso compromisso contínuo com Luanda, existe uma continuidade. Apesar de fazer parte de uma bienal de arte, há uma forte conotação arquitectónica – concerteza devido ao facto de ambos serem arquitectos e o Edson [Chagas] um fotógrafo que documenta a cidade. Mas a exposição também responde claramente ao tema geral da Bienal, que é também muito “arquitectónico” [Encyclopedic Palace / Palácio Enciclopédico]. As fotografias de Edson mostram uma Luanda silenciosa, o que parece quase um paradoxo. Achei as imagens muito poéticas, bonitas e significativas. Elas falam sobre paredes, texturas, imperfeição... Mostram um certo tipo de Luanda, que certamente não é o de uma cidade em rápido crescimento, cheia de paredes de vidro e materiais reluzentes...

PN: Concerteza!

E depois o vosso trabalho como curadores permitiu uma relação estreita entre os diferentes elementos, em várias escalas: as fotos em relação às salas e os seus quadros antigos; a exposição em relação à cidade, pois os visitantes podem levar os cartazes com eles...

SRP: O trabalho de Edson incorpora o modus operandi enciclopédico, que é, simultaneamente, uma documentação, tanto quanto uma invenção poética. Ele não documenta simplesmente objectos encontrados. Pelo contrário, ele encontra os objectos, relocaliza-os pela cidade e, em seguida, documenta-os. Cada vez que um objecto é reposicionado, surge um novo tipo de relação com o contexto, que afecta o ambiente e que muda o próprio objecto. É o momento em que o trabalho dele se torna um acto criativo.

PN: O centro da cidade de Luanda, onde a maioria das fotos foram tiradas, é feito de arquitectura colonial, que está a ser deixada morrer, para dar espaço a edifícios especulativos. Há quase um sentimento de nostalgia, porque em breve, a maioria dos detalhes capturados nas imagens de Edson irão desaparecer...

Curiosamente, a maioria dos pintores presentes naquela sala eram pintores urbanos... O que poderia ser visto como um acto de transgressão, com a colocação de Luanda contemporânea contra a Veneza clássica, acabou por ser uma coexistência bem equilibrada.

Há também um outro aspecto que eu acho importante: a relação com a cidade. Não é apenas sobre o facto de que as pessoas levam os cartazes com elas, mas também o facto de que nós conseguimos activar outro ponto na geografia cultural de Veneza e da Bienal. O Pallazzo está sempre fechado, ninguém tem permissão para ver a colecção Cini. Está agora aberto apenas por causa desta exposição. Até certo ponto, Piero della Francesca e Botticelli devem estar gratos ao Edson, pois as suas fotografias permitiram-lhes serem vistos e revisitados.

Por falar nisso, como é que começou a relação com a Fundação Cini?

SRP: Temos o privilégio de trabalhar com a Fondazione Giorgio Cini desde 2009. Esta colaboração tem sido fundamental para o desenvolvimento de Beyond Entropy. A Fondazione Cini é o epicentro de Beyond Entropy Europa, a sede da nossa pesquisa sobre a expansão e a paisagem entrópica do território europeu contemporâneo.

Há um outro aspecto que gostaria de abordar, a racionalidade da exposição. As alturas das pilhas de fotografias variam devido a razões estruturais. É uma decisão técnica, não tem nada de aleatório... Embora, admito, isso torne a exposição mais bonita. Este tipo de conjugação entre as decisões técnicas e poéticas fazem um projecto bem sucedido...

PN: Isso é exactamente o que a arquitectura – ou a manipulação espacial – deve tratar: usar a técnica para expressar a poesia em cada situação. Eu gosto de controlo, e a ordem espacial foi meticulosamente planeada, mas devo admitir que houve momentos de “sorte”, como, por exemplo, quando as cores das imagens do Edson corresponderam e complementaram as pinturas existentes...

SRP: O aspecto racional a que te referes está muito em linha com o lema de Beyond Entropy: “Nada mudar para que tudo seja diferente”. O Pavilhão de Angola activa um museu latente em Veneza por não mudar nada: nenhuma pintura foi removida das paredes, e não aconteceu nenhuma mudança radical na organização das salas. Enchemos o centro das salas – que estão sempre vazios – com vinte e três pilhas de cartazes. Todas as decisões foram quase pré-determinadas. Foi muito importante a colaboração com os Tankboys, os designers gráficos e directores artísticos do pavilhão, que desempenharam um papel activo na definição do formato da exposição.

Tivemos que trabalhar com um orçamento baixo, assim o catálogo teve que ser a exposição e a exposição teve que ser o catálogo. A disposição das pilhas de cartazes foi determinada pela distribuição da carga sobre as vigas. A carga estrutural dos cartazes definiu a altura de cada pilha e a sua posição no espaço, enquanto o número e a distância entre os cartazes foi determinado pelos regulamentos de incêndio.

A este respeito, a vossa exposição é fundamentalmente diferente da portuguesa, que me parece quase demasiado extravagante. Por exemplo, um barco não é um edifício, então porquê cobri-lo com azulejos? Estiveram na exposição de Portugal? E, por falar nisso, podem fazer algum comentário sobre a Bienal como um todo?

SRP: Confesso que ainda não vi a Bienal. Passámos o tempo todo no pavilhão...

PN: Honestamente Paulo, eu ainda não a vi! Ou melhor, vi de longe, no Giardini. O tempo em Veneza foi tão agitado, não houve a oportunidade de apreciar outros pavilhões, o que é uma pena. Reparei que o pavilhão português teve um grande programa de eventos. Mas talvez devido à situação política e económica que Portugal está a viver, eu sinto uma ligeira nostalgia quando vejo o “velho cacilheiro” e os azulejos, uma memória da grandeza que foi e que não irá voltar.

Para os olhos de um estranho, a participação de Angola em Veneza teve algumas situações pouco claras... Estou-me a referir à exposição Angola em Movimento, paralela à vossa. Podem falar sobre como conviveram com a outra exposição, e com a cobertura que recebeu na comunicação social angolana?

PN: Para entender isso, é preciso ir um pouco atrás... e mencionar a proposta que apresentámos na 13.ª Bienal de Arquitectura de Veneza. Como dissemos, foi muito bem sucedida internacionalmente e gerou um convite para a participação deste ano, na Bienal de Arte, e nós decidimos envolver o Ministério mais uma vez. Quando apresentámos a proposta à Ministra da Cultura, ela concordou em apoiar o nosso projecto, em metade do orçamento inicial, e em troca nós ajudaríamos a produzir uma mostra mais alargada das artes visuais angolanas. O Ministério decidiu levar uma amostra da colecção ENSA e organizaram uma exposição, com curadoria de Jorge Gumbe, intitulada Angola em Movimento, com artistas de diferentes gerações e estilos. Esta é uma exposição paralela, não a participação oficial da Bienal, e está instalada no segundo andar do Pallazzo Cini.

Talvez por esta ter sido a contribuição do Ministério, foi divulgada em Angola como a exposição principal, e foi dada muito pouca atenção à exposição oficial propriamente dita. Este também é um processo novo em Angola, e a ambiguidade na comunicação sobre o que estava a acontecer em Veneza gerou alguma confusão. Parece haver um entendimento de que o prémio foi concedido a tudo o que foi exibido no Pallazzo Cini, quando na verdade a declaração do júri é muito clara! Nós não estávamos em Luanda naquele momento e decidimos separar-nos de qualquer discussão acerca desta confusão. Entre a comunidade artística internacional há plena consciência sobre os diferentes estados das duas exposições.

Em relação às reacções ao prémio, uma importante revista alemã descartou a participação de Angola num artigo intitulado ”Angola! Wo ist Angola?”, como se o país não tivesse legitimidade para ter sucesso no mundo da arte. Entre outras insinuações, o artigo acusou pessoalmente o Stefano de fazer lobby no círculo de arte de Veneza. Querem comentar?

PN: Eu tenho que dizer que tudo isto foi muito triste, porque a crítica não foi dirigida às obras de arte do Edson ou até mesmo à abordagem curatorial. Era um artigo escrito por alguém que estava claramente frustrado porque a Alemanha ou outro país com maior tradição na Bienal não venceu e estava então a implicar que Angola (e, portanto, África) só poderia ganhar por causa de lobbying... É triste que a jornalista não se tenha envolvido numa conversa sobre a arte e o estado da arte africana.

SRP: Essa é a razão pela qual decidimos não responder publicamente a essa jornalista: não faz sentido discutir um assunto com base em insinuações e intrigas baratas. As respostas de outros curadores e do público em geral foram suficientemente claras para encerrar o debate em torno desse artigo medíocre e infeliz. À parte deste episódio, estamos sempre dispostos a participar em qualquer discussão e aceitamos críticas baseadas na abordagem curatorial e nos conteúdos artísticos da exposição.

Para vocês, qual é o estado das artes angolanas? E como pretendem continuar a contribuir para a cena cultural no futuro próximo?

PN: Existe uma grande quantidade de produção da parte de jovens artistas e, obviamente, de uma geração mais velha. No entanto, existem muito poucas estruturas profissionais adequadas que possam apoiar estes artistas. Precisamos de mais escolas, galerias e plataformas para apoiar o que está a ser produzido por artistas angolanos contemporâneos. A Trienal de Luanda é um evento importantíssimo e deu o ponto de partida, assim como vários estúdios independentes e projectos, tais como e-studio – Antonio Ole, Rita GT, Francisco Vidal e Nelo Teixeira – estão a tentar estabelecer plataformas alternativas para debate. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer...

SRP: Estamos a criar um programa ambicioso de residências artísticas na Sardenha, como parte de Beyond Entropy Mediterrâneo. A galeria ao ar livre de Mangiabarche e o Museu de Arte Contemporânea de Calasetta funcionarão como epicentro para o intercâmbio cultural e artístico entre artistas do Mediterrâneo e de África. Noutras palavras: o melhor ainda está para vir.

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English version

A Conversation with the curators of the Angolan Pavilion at the 2013 Venice Biennale
Published in Africa is a Country, September 2013
Link

Beyond Entropy works around the concept of energy for producing new forms of spatial practice. It is directed by Stefano Rabolli Pansera, an Italian architect based in London. The Africa projects are co-directed by Paula Nascimento, an Angolan architect who studied and lived in London for over a decade before moving back to Luanda. Stefano and Paula curated the exhibition “Luanda Encyclopedic City”, awarded the Golden Lion at the 55th Venice Biennale (1 June to 24 November, 2013). The following conversation took place in July 2013, between Lisbon, Porto, Luanda and London.

First of all, congratulations for the Golden Lion at La Biennale di Venezia. I would like to start by talking about the formation of Beyond Entropy (B/E). What are the scope and objectives of the project?

Stefano Rabolli Pansera: Beyond Entropy was set up in 2009 as part of the Architectural Association (AA) in London. At the time I was teaching and I was interested in exploring a specific theme: Energy. I believe this is a central issue in contemporary architectural discourse but very often architects reduce the concept of Energy to a technical issue: CO2 emissions, green energy, solar panels, etc. I was interested in Energy beyond the rhetoric of sustainability. I wanted to create an inter-disciplinary cluster, to collaborate with artists, scientists and architects in order to create prototypes for a new spatial understanding of the concept of Energy.

You were part of the 2010 Venice Architecture Biennale and then the Milan Triennale. How – and why – did a think-tank jump to such important events?

SRP: The cluster of research was a huge undertaking. We visited CERN in Geneva, we took part at Lecce Energy Festival, we organized lectures and symposia in London. All the participants were incredibly committed and I wanted to offer them a platform for exhibiting their research in a larger stage than the academic framework of the AA. I decided to apply as a collateral event to the 2010 Venice Architecture Biennale. The works that we developed were very ambitious and unpredictable: they were prototypes in-between artworks, architectural models and scientific experiments… They were brilliant inventions to understand the relationship between Energy and Space with new eyes. The show was very successful and we were invited to exhibit at the Milan Triennale in the following year.

Meanwhile, B/E expanded to different regions. What motivated the re-definition of the project? How is it structured?

SRP: After the Triennale exhibition in Milan, I wanted to separate Beyond Entropy from the school and transform it into an independent spatial agency. In a way, it was a natural progression. Today, Beyond Entropy operates in Europe, Mediterranean and Africa: B/E Europe focuses on the dissolution of the distinction between city and countryside in a uniform entropic landscape; B/E Mediterranean focuses on the bipolar occupation of the Mediterranean coast, constantly alternating between protection and touristic exploitation, between shrinking urban life and overcrowded seasonal tourism; B/E Africa focuses on the morphology of the African city where huge urban conurbations are built and occupied despite the lack of basic infrastructure. In each territory we propose a new spatial model in the form of a building or infrastructure, exhibition, publication, etc…

PN: It is important to stress the geo-political aspect of the projects, thus Beyond Entropy gradually established itself as an international network. We started by researching Luanda, as the paradigm of the extraordinary urban transformations currently happening in sub-Saharan cities. Since last year, we have been developing this research, supported by several exhibition projects…

…Including the Architecture Biennale in 2012. How does such a young project gain institutional recognition so quickly, becoming the Republic of Angola first official representation in Venice?

SRP: Paula and I met in Venice in September 2010 during a workshop organised by the AA. I had just completed the exhibition “Beyond Entropy, when Energy becomes Form” at the Fondazione Giorgio Cini. While chatting in the beautiful gardens of San Giorgio Island, we decided to organize the first participation of Angola in the Venice Biennale.

Yes, but how did you find official support, funding, etc?

PN: I would say we’ve been relentless, above all. Stefano and I discussed potential projects and routes to pursue, and a clear interest in Luanda and its mutant characteristics emerged. By then we began to conceptualize a project for Angola and – why not? – an official participation. It was very important to frame the proposal in such a way that the Angolan authorities – in this case the Ministry of Culture – could understand why it could be important for Angola to have a National Pavilion at the Biennale.

How did you convince the Ministry?

PN: If Angola is on the news every so often because of its economic growth, why not expand this presence in events of such high cultural calibre, especially bearing in mind the strength of its contemporary production? By exporting culture at highest level, we are also making a statement about a young nation that is not just about oil and money but has something else to export.

Then how did you manage to put this in practice?

SRP: After an initial understanding of the logistics and the overall budget, we met in Luanda in November 2011 and, thanks to the Italian ambassador in Luanda, Giuseppe Mistretta, we had a meeting with the Minister of Culture of Angola…

PN: The Ministry considered the project but took almost half a year to give us permission to participate as a National Pavilion. It was a complex process of negotiation – and in fact we are thankful to the extraordinary help from the Italian Embassy, as well as the Angolan Embassy in Rome. In the end, we did get a letter confirming Angola’s first ever participation and Beyond Entropy as curators.

How did you move on from there?

PN: In parallel to this long process, we made proposals for collaborating with local universities and only one – Universidade Metodista de Angola – seemed interested in the idea we presented. At the same time, we started fundraising. We got private sponsoring from Angolan and Italian companies, and also had to investment some of our personal money in order to design and build the installation.

The project presented an approach to Luanda that is often neglected in architecture and urban studies. It acknowledged the infrastructural problems of its complex urban mesh, but it also understood its qualities. Can you describe the model you proposed and reflect on the impact such model could have?

SRP: We developed an initial investigation in Cazenga with a group of students from Universidade Metodista. It was a wonderful experience to try to understand how space is dwelled and inhabited there. Every space performs simultaneously a multiplicity of functions: every house is simultaneously office, warehouse, garage, public space… We proposed to preserve this quality. We suggested a proposal that performs simultaneously as public space and infrastructure, using a plant called Arundo Donax, a shrub whose roots filter naturally dirty waters and whose log contains filters that are ideal to produce bio-mass.

PN: The proposal is a critique to the notion of requalification as it stands and is being implemented in Luanda, a city that is chaotic yet emblematic on many levels. Luanda is changing and growing extremely fast, and between extreme conditions: on the one hand, a city planned according to Chinese and American models; on the other hand, an informal city growing organically in the interstitial spaces; then there is the colonial city, which is slowly being erased… Our proposal somehow negotiates in-between these realities.

You’re raising many interesting topics. I’m interested in the methodology you followed, I know it’s not easy to work in the ‘forgotten’ areas of Luanda. Can you tell a bit more about the workshops with students?

PN: After a few meetings with the local administration and the directors at the University, we started a week-long workshop with 4th and 5th year students in Cazenga. Initially, we visited the neighbourhood to understand its contrasts and complexity, and to make students engage with a reality that is often under-represented or forgotten, as you say. Later, students choose four buildings and examined them in detail, almost like a forensic investigation of each space, looking at the construction details, the living habits, the time passage, drawing everything, understanding the spatial intelligence that exists and is often unseen. In addition to this live experience, we managed to receive some data from the local authorities, which helped us to shape an image of the neighbourhood. Almost simultaneously to this boot-camp work, we did research on the properties and use of Arundo Donax.

The concept seems absolutely suitable for the context. How was the exhibition received in Angola and elsewhere?

SRP: There was an extraordinary interest on the project both from the architectural world and from the art world. For instance, we were invited by Bice Curiger to write an article on Parkett and we had the chance to extend the research with an exhibition in Porto [Luanda de Baixo P’ra Cima].

PN: To be honest, we didn’t get much scrutiny and visibility in Angola. The truth is that barely anyone believed in the project or saw relevance on what we were doing, apart from the academic world. Internationally though, the conversation was different. The fact that Angola was participating for the first time at La Biennale, in such a special location – Isola di San Giorgio –, drew a lot of attention. I believe that the ideas behind the project and the fact it offered a potential solution to a real problem, created an agenda for discussing the city.

These are somehow controversial topics in the context of Angola, where the ongoing strategies of urban regeneration give little attention to a city that is already there, in favour of something else. What were the common reactions you got?

PN: Opinions sometimes reduce the project to a purely academic research, but I think that perspective is wrong. It is obvious that the aim of the installation was to communicate the concept and make a bold statement, but we believe in the implementation of the project, which would require adjustments and deeper on-site exploration. I think that it is a project to be revisited. Perhaps more important than its implementation, is the transversal discussion it can raise. We will present the project in Luanda in the end of the year and I am very curious to see how the Luanda society will react.

Let’s stay at the present for now. The readers want to know about the Golden Lion! It is very clear that Luanda Encyclopedic City emerges as part of your ongoing engagement with Luanda, there is a continuity. Despite being part of an art biennale, there is a strong architectural connotation in it – for sure for both of you being architects, and Edson [Chagas] being a photographer documenting the city. But the exhibition also complies very straight-forwardly with the general theme of the Biennale, very “architectural” itself [Encyclopedic Palace]. Edson’s photographs show a silent Luanda, which seems almost a paradox. I found his images very poetic, beautiful and meaningful. They talk about walls, textures, imperfection… They show a certain kind of Luanda that is certainly not that of a fast growing city full of glazed walls and shiny materials…

PN: Absolutely!

And then your work as curators enabled for a tied relationship between all the different elements, at various scales: the photos in relation to the rooms and its old paintings; the exhibition in relation to the city, as the visitors were able to take the posters with them…

SRP: The work of Edson embodies the encyclopedic modus operandi which is simultaneously a documentation as much as a poetic invention. He does not just simply documents found objects. On the contrary, he finds the objects; he re-locates them in the city and then he documents them. Every time an object is repositioned, it produces a new kind of relationship with the context that affects the surrounding and that changes the object itself. It is the moment when his work becomes a creative act.

PN: Luanda’s downtown, where most of the photographs were taken, is made of colonial architecture which is being left to die to give space for the speculative buildings. There is almost a sense of nostalgia, because soon most of the details captured in Edson’s images will disappear…

Funnily enough, most of the painters present in that room were urban painters… What could be seen as an act of transgression with the placement of the contemporary Luanda against the classical Venice, ended up being a well-balanced coexistence.

There is also another aspect which I think is important, the relation with the city. It is not only about the fact that people take the posters with them, but also the fact that we managed to activate another point in the cultural geography of Venice and the Biennale. The Pallazzo is always closed; no one’s allowed to see the Cini collection. It is now open only because of this show. To a certain extent, Piero della Francesca and Botticelli must be thankful to Edson for his photographs allowed them to be seen and revisited.

By the way, how did the relationship with Cini Foundation start?

SRP: We have the privilege of working with the Fondazione Giorgio Cini since 2009. This collaboration has been central in the development of Beyond Entropy. Fondazione Cini is the epicentre of Beyond Entropy Europa, the headquarters of our research on the sprawl and the entropic landscape of the contemporary European territory.

There is another aspect I would like to address, the exhibition’s rationality. The heights of the piles vary due to structural reasons. It is a technical decision, there is nothing random about it… Although, I admit, it makes the exhibition more beautiful. This sort of conjugation between technical and poetic decisions make a project successful…

PN: That is exactly what architecture – or spatial manipulation – should be about: using technique to express poetry in every situation. I like control, and the spatial arrangement was meticulously planned, but I must admit, there were moments of ‘chance’ when for example the colours of Edson’s images matched and complemented the existing paintings…

SRP: The rational aspect that you are referring to is very much in line with the motto of Beyond Entropy: “changing nothing so that everything is different”. The Angolan Pavilion activates a latent Museum in Venice by not changing anything: no painting was moved from the walls, no radical change in the layout of the rooms. We filled the centre of the rooms – which are always empty – with twenty-three stacks of posters. All the decisions were almost pre-determined. It was very important the collaboration with Tankboys, the graphic designers and art directors of the pavilion who played an active role in the definition of the format of the exhibition.

We had to work on a low budget: so the catalogue had to be the exhibition and the exhibition had to be the catalogue. The disposition of the stacks of posters on the floor was determined by the distribution of the load on the beams. The structural load of the posters defined the height of each stack and the position in the room while the number and the distance between the posters was set by the fire regulation.

In this respect, your exhibition is fundamentally different from the Portuguese one, which to me seems almost too extravagant. For instance, a boat is not a building, so why would you cover it in ceramic tiles? Anyway, have you been at Portugal’s exhibition? And, by the way, any comments about the Biennale as a whole?

SRP: I confess I haven’t seen the Biennale yet. We spent all the time at the pavilion…

PN: Honestly Paulo, I haven’t seen it yet! I saw it from a distance, at the Giardini. The time in Venice was so hectic, there wasn’t a chance to appreciate other pavilions, which is a shame. I noticed the Portuguese pavilion had a great program of events. But maybe due to the current political and economic situation that Portugal is living, I feel a slight nostalgia when I see the “old cacilheiro” and the tiles, a memory of greatness that was and will not return.

To the eye of an outsider, the Angola participation in Venice had some unclear situations… I’m talking about the exhibition “Angola em Movimento”, parallel to yours. Can you tell how you co-lived with the other exhibition, and with the coverage it had in the Angola media?

PN: In order to understand this, we must go a bit backwards… and mention the proposal we presented at the 13th Venice Architecture Biennale. Like we said, it was very successful internationally and generated an invitation for participation this year, at the art biennale, and we decided to engage the Ministry once again. When we presented the proposal to the Minister of Culture, she agreed to support our project in half of the initial budget, but wanted to organize a wider showcase of Angolan arts, and we agreed to help the Ministry doing that. They decided to take a sample of the ENSA collection and organized an exhibition, curated by Jorge Gumbe, titled “Angola em Movimento” which is a more traditional showcase of Angolan arts. This is a parallel exhibition, not the official biennale participation and is installed on the 2nd floor of the Pallazzo Cini. We are in the first floor.

Perhaps because this was the contribution from the Ministry, it was publicised in Angola as being the main exhibition, and very little attention was given to the actual official show. This is also a new process in Angola, and the ambiguity in the communication of what was happening in Venice generated a lot of confusion. There seems to be an understanding that the prize was given to everything shown at the Pallazzo Cini, when in fact, it was given only to the registered project – the jury statement is very clear! We weren’t in Luanda at the time and decided to detach ourselves from any discussion regarding this confusion. But among the international artistic community there is full awareness about the different statuses of the two exhibitions.

Concerning the reactions to the prize, an important German magazine dismissed the Angola participation in an article titled “Angola! Wo ist Angola?”, as if the country had no legitimacy to succeed in the Art World. Among other insinuations, it accused personally Stefano for lobbying among the Venice art circle. Would you like to comment?

PN: I have to say that it was quite sad all this because the criticism wasn’t directed at the artworks of Edson or even the curatorial approach. It was an article from someone who was clearly frustrated that Germany or other country with longer tradition at the Biennale didn’t win and was implying that Angola (and thus Africa) could only win because of lobbying… It is sad that the author did not engage in a conversation about art and state of African arts.

SRP: This is the reason why we decided not to answer publicly to that journalist: there is no point in arguing on the basis of insinuations and cheap gossip. The answers by other curators and by the general public were clear enough to terminate the debate around this mediocre and unfortunate article. Apart from this episode, we are happy to engage in any discussion and we accept criticism based on the curatorial approach and on the artistic contents of the exhibition.

For you, what is the state of Angolan arts? And how do you plan to keep contributing to artistic culture in the near future?

PN: There is a lot of production from young artists and obviously an older generation. However, there are very few proper professional structures that can support those artists. We need more schools, galleries and platforms to support what is being produced by Angolan contemporary artists. The Luanda Triennale gave the starting point, and the several independent studios and projects such as e-studio [Antonio Ole, Rita GT, Francisco Vidal and Nelo Teixeira] are trying to establish alternative platforms for debate. But we still have a long way to go…

SRP: We are setting up an ambitious programme of artists residencies in Sardinia, as part of Beyond Entropy Mediterranean. The open-air gallery of Mangiabarche and the Museum of Contemporary Art of Calasetta will operate as epicentre for the continuous cultural and artistic exchange between artists from Mediterranean and from Africa. In other words: the best is yet to come.