Crowdfunding
Entrevista de PPL sobre o projecto de crowdfunding que deu origem ao livro "A Chicala não é um bairro pequeno". PPL, 16.3.2012

PPL

Colocámos algumas questões ao Paulo Moreira, promotor de um dos projectos com maior sucesso na plataforma! Ao que parece, para um projecto ser bem sucedido, não basta divulgá-lo numa ampla rede de contactos. Como é que se consegue traduzir o passa-palavra em apoios ao projecto?

A rede de contactos pessoais, real e virtual, por mais ampla que seja, dificilmente será suficiente para financiar a totalidade do projecto. Há que fazê-lo chegar a um público mais alargado. No meu caso, paralelamente a uma intensa e contínua divulgação em pessoa e nas redes sociais, assumo que tirei partido do ‘poder’ da comunicação social.

Fiz uma nota de imprensa sobre a exposição “Angola não é um país pequeno”, que teria como elemento ‘extra’ uma publicação que, por sua vez, procurava financiamento via crowdfunding. Esta estratégia terá sido preponderante para a dimensão que a divulgação atingiu.

Por um lado, fez com que o projecto chegasse a um público mais alargado. E por outro lado, talvez com mais impacto prático, fez com que a divulgação consistisse em algo mais do que um apelo ‘na primeira pessoa’, baseado na transmissão de um link exclusivo: permitiu uma diversificação de conteúdos e formatos por diferentes meios e plataformas...

Estou certo que, através da constante disseminação de artigos e entrevistas, ‘convenci’ algumas pessoas a investir no projecto! Ao mesmo tempo, isto fez com que os apoiantes ‘institucionais’, que iriam contribuir com valores elevados, se fossem interessando gradualmente pela ideia.

Qual a maior dificuldade que enfrentaste durante a promoção do teu projecto no PPL? Promover o projecto exige uma enorme disponibilidade, que pode ser confundida com a ‘dificuldade’ de ter que explicar constantemente o conceito de crowdfunding, em que consistia o meu projecto, as recompensas, etc.

Em primeiro lugar, houve alguma dificuldade na preparação e encerramento da promoção propriamente dita: o trabalho de definir a estratégia, editar o video, produzir e entregar as recompensas... Foi realmente trabalhoso!
Mas a tarefa mais complexa de todas talvez tenha sido explicar o processo de transferência de dinheiro para a conta do projecto. Reparei que, aquelas pessoas que estariam só parcialmente interessadas em colaborar, tenham acabado por desistir, por considerarem o processo demasiado complicado. Na minha opinião, este é um ponto a melhorar.

Da(s) estratégia(s) que adoptaste, o que foi mais eficaz? E menos?

A fase de preparação foi essêncial e provou ter sido eficaz. Permitiu delinear a estratégia de modo a aproximar as recompensas ao perfil dos possíveis investidores. No meu caso, simplificando o plano, imaginei dois tipos de apoiantes: individuais e institucionais.

Os primeiros estariam interessados no projecto, mas sobretudo no meu trabalho global, do qual teriam o mínimo conhecimento (pertenceriam, maioritariamente, à minha rede próxima ou alargada de familiares, amigos e conhecidos). Este grupo iria contribuir com valores relativamente baixos, por isso procurei oferecer grande variedade de recompensas para investimentos de valores modestos. Por exemplo, defini recompensas tão distintas como um livro, um cachecol, um poster ou um dvd para valores muito próximos (15 e 25 euros). Esta estratégia provou ter sido eficaz.

O segundo tipo de apoiantes, as instituições, teriam capacidade para contribuir com um valor mais elevado (cerca de 200 euros), a troco de combinações de várias recompensas e publicidade no livro. A estratégia para este grupo talvez não tenha sido tão eficaz, sobretudo porque exigia o contacto pessoal (reuniões, apresentações), que o tempo, a distância ou outras circunstâncias não permitiram satisfazer a 100%.

O que farias de modo diferente se lançasses uma nova campanha?

Procurava uma estratégia capaz de captar apoios de valores intermédios (um novo grupo-alvo?); reconsiderava o valor dos investimentos institucionais (parece-me que poderia aumentar) e tentava optimizar os custos da produção das recompensas. Tudo isto talvez permitisse aumentar a tiragem da edição do livro.

Para além do financiamento do projecto, qual o impacto da tua campanha de crowdfunding? Podes mencionar por exemplo efeitos de divulgação, apoios de que não estavas à espera, novas oportunidades que tenham surgido durante/após financiamento do projecto, etc.

É importante referir que o projecto de crowdfunding foi igualmente, em vários níveis, um investimento meu. O objectivo foi financiar a produção física da publicação (designers, traduções, impressão...), mas houve também um trabalho preparatório imenso, de edição e produção de conteúdos, que exigiu um grande investimento intelectual, etc. Tive o privilégio de contar com um grupo de contribuidores que acreditaram no projecto desde o início, aos quais agradeço!

Poderia dizer que a estratégia de divulgação permitiu fazer chegar o meu trabalho a muitos públicos, o que não deixa de ser verdade... Mas há um outro aspecto que é importante referir: isto é o meu trabalho. A publicação foi um elemento integrante da exposição “Angola não é um país pequeno”, da qual faziam parte outros materiais. Desse modo, interessava-me reflectir sobre as várias dimensões do objecto ‘livro’, desde a sua divulgação ao seu financiamento e produção – são partes integrantes de uma prática em si mesma.

O trabalho que estou a desenvolver tem uma dimensão fenomenológica, envolvendo uma série de indivíduos e instituições em práticas investigativas que cruzam métodos de diferentes disciplinas, da arquitectura às ciências sociais. As pessoas que se envolveram no projecto de crowdfunding tornaram-se colaboradoras do objecto final de facto... Não só por os seus nomes terem sido incluídos na lista de agradecimentos. Por exemplo, o último capítulo do livro inclui transcrições da entrevista à RDP-África e do artigo do P3 – Público. Inclui também uma reflexão sobre o poster que deu ‘cara’ ao projecto, elaborada pelo designer Nuno Coelho. Interessava-me documentar as reacções e o interesse que o projecto ia despertanto no público, e resolvi inclui-los no livro. Acho que esta é a essência de um projecto participativo.

Respondendo directamente à questão: o projecto trouxe muitas vantagens ao meu trabalho. No dia do lançamento, vendi metade da edição! Agora, o livro está praticamente esgotado, há meia dúzia de exemplares à venda na Livraria Fernando Machado e na Matéria-Prima, no Porto e Lisboa.

Isto excedeu as expectativas largamente, porque era suposto apresentar o livro em Luanda e noutros locais... É muito importante levá-lo aos participantes do workshop que deu origem à exposição (moradores do bairro da Chicala e estudantes de arquitectura das Universidades Agostinho Neto e Lusíada de Angola), porque irão sentir orgulho no seu bairro e no seu trabalho. Estou neste momento a preparar a segunda edição, para poder cumprimr esse objectivo.

Esta segunda edição não será financiada via crowdfunding, porque entretanto reuni suficientes apoios de novos e recorrentes mecenas institucionais. Entretanto, continuo a receber reacções positivas (por exemplo, recentemente encontrei uma espécie de fórum online sobre o poster que deu título ao projecto) e algumas propostas motivadoras, como uma reportagem numa revista semanal (em processo) e uma eventual exposição em Londres (à espera de confirmação).

Tudo isto foi possível, sem dúvida, pela visibilidade que o projecto atingiu na plataforma PPL – e agradeço-vos por isso, são também colaboradores do projecto.

Qualquer recomendação ou feedback acerca da plataforma, dos processos etc. são obviamente bem-vindas!

Acerca de plataforma, recebi alguns comentários que me parecem pertinentes. Há gente que preferiu não registar-se no site (por falta de tempo ou desinteresse em digitar os seus dados em “mais um site”), e por isso transferiu-me dinheiro directamente (e eu fi-lo chegar ao projecto).

Proponho que o modo de pagamento seja facilitado, através de pagamentos directos pelo Paypal ou Multibanco – o processo de fazer um carregamento na conta pessoal e só posteriormente poderem utilizá-lo em projectos diversos parece ser demasiado complexo... Proponho também que o logotipo do Paypal e Multibanco sejam bem visíveis, se possível na homepage. Isto irá atraír mais contribuidores.

Outra sugestão: o design do site talvez seja demasiado vocacionado para ‘economia’ e não tanto para’criatividade’, não sei se me faço entender. Parece-me que as moedas, tabelas e gráficos dão uma ideia de ‘negócio’, quando seria mais apelativo transmitir uma ideia de ‘troca’ ou ‘partilha’. Fica a sugestão...