Escolinha/Centro Político nos musseques de Luanda, Angola
Publicado na revista A21#11 - Mapa de Jovens Práticas Espaciais (Portugal, 2011)

Aborda-se a natureza dos musseques de Luanda. O projecto que está na base da investigação situa-se na “sombra” de um conflito urbano decorrente do crescente “sobredesenvolvimento” da cidade: propõe-se uma Escolinha/Centro Político como estímulo à participação da população desfavorecida nos debates cívicos de Luanda.

A disposição espacial dos musseques pode ser compreendida como estratégia de resistência, já que a irregularidade do padrão urbano dificulta o controlo das autoridades. No final dos anos 50 apareceram nos musseques movimentos não-autorizados que se revoltaram no dia 4 de Fevereiro de 1961, dando início à Guerra do Ultramar. “O grito foi dado aqui, no areal vermelho. Grito que cresceu e ecoou em todo o país, imparavelmente.” (Pepetela).

Durante a guerra civil (1975-2002), os musseques sofreram uma grande expansão, devido à migração de refugiados em busca de estabilidade e segurança na capital. Este fenómeno levou a um outro: estima-se que actualmente metade da população seja menor de quinze anos de idade. A educação deveria portanto ser uma prioridade, de modo a garantir à população marginalizada um lugar na trajectória de desenvolvimento de Luanda.

O projecto não é entendido como o mero aprovisionamento de um equipamento cumpridor de protocolos standard de códigos escolares e da indústria da construção (mesmo que haja importantes lições a aprender de ambos). Em vez disso, ocorre na esfera do conhecimento prático, menos dependente dos métodos convencionais. Esta é uma área emergente de estudos arquitectónicos, crescente em grande parte devido à insatisfação perante os resultados dos recentes procedimentos capitalistas de Angola. Questiona-se o entrelaçamento entre forma e programa nas complexidades políticas e históricas do sítio.

A dimensão especulativa desta investigação apresenta um projecto cooperante (não necessariamente construído) como meio para informar e alterar as fracas perspectivas de jovens, cultivando a auto-determinação cultural e política e contribuindo para que a comunidade possa adquirir uma digna presença urbana.

A indiferença mostrada pelas autoridades locais exige uma análise estratégica mais simpática à justiça social, mais além da simples provisão de um projecto que os moradores seriam obrigados a aceitar. Talvez seja o arquitecto - arquitecto português - quem através do acesso a um arquivo cultural/político/histórico possa mobilizar novas práticas de projectar, uma espécie de manual de ideias para o qual têm contribuído arquitectos, construtores, residentes e activistas. O projecto é um veículo para aprender comportamentos sociais, histórias arquitectónicas, sensibilidades pós-coloniais, e a complexidade - ou dilema - que a ajuda humanitária pode significar na Angola contemporânea.

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Escolinha / Centro Político: photo-model, PM