Dossier: Investigação Prática
First published at Revista Arqa #103 (October 2012)

Revista Arqa #103

A investigação arquitetónica tem contribuido para uma endémica separação entre teoria e prática. O discurso predominante atribui à prática o compromisso de resolver os problemas da cidade através de formas puras, belas e eficientes; enquanto a teoria se esforça por descobrir generalizações que demonstrem a relação de casualidade entre certas ações e determinados resultados mensuráveis, como se a arquitetura se exprimisse à imagem das ‘Leis’ da ciência. Pelo contrário, a investigação prática procura conciliar aspectos disciplinares e universais com a riqueza de determinada situação concreta. É um veículo para entender o modo através do qual a arquitetura e a topografia urbana, em determinado contexto, criam condições para as práticas inerentes à condição humana. Projetar e fazer tornam-se meios fundamentais de análise, interpretação e argumentação. Este Dossier apresenta as várias dimensões duma investigação prática em curso na Sir John Cass Faculty of Art, Architecture and Design, London Metropolitan University. O trabalho centra-se no bairro da Chicala, em Luanda, um musseque construído por uma população migrante, sobretudo durante os anos da guerra civil em Angola (1975-2002). O estudo procura demonstrar a vitalidade de um bairro ‘informal’ e o seu contributo para a história e modo de funcionamento da cidade.

A contextualização histórica é convertida numa análise territorial mais alargada, de forte componente visual, que confere ao estudo uma dimensão social e política. Os modos de representação do território, ao longo das épocas, têm sido documentados e reinterpretados à luz da condição póscolonial. O mapa elaborado por Henrique Galvão para a exposição do Mundo Colonial de 1934, no Porto, representava o mito de Portugal (e suas colónias) como potência de relevância europeia e global. No panorama atual, os papeis inverteram-se: o mapa “Angola não é um país pequeno” especula e provoca sobre a mudança de paradigma, evidenciando a grandeza do território de Angola, comparativamente à do antigo colonizador. Do mesmo modo, os símbolos da identidade nacional angolana têm servido de base para o diálogo com cidadãos e atores da produção do espaço. O reconhecimento preliminar das circunstâncias espaciais da Chicala culminou na criação de um artefacto construído em colaboração com alguns moradores locais, que forneceram a matéria-prima e a mãode- obra. O caráter arquitetónico da Bandeira de Angola reside no facto de ter sido realizada com materiais utilizados na construção de edifícios: areia, cimento, ferro. O facto de tratarse de um símbolo nacional construído coletivamente, confere ao projeto uma dimensão metafórica e ideal.

O envolvimento fenomenológico do investigador no contexto em estudo forma parte do método de investigação prática. A sua ação potencia experiências entre todos os agentes envolvidos: autoridades e moradores locais, estudantes e agentes não-governamentais. As ações comunitárias parecem invocar uma certa solidariedade entre instituições locais e externas, o que aponta para uma aproximação da Chicala à cidade de Luanda, e vice-versa. O trabalho não se esgota na análise e interpretação dos resultados de inquéritos e levantamentos realizados pelos participantes – a própria natureza colaborativa do trabalho de campo, o modo de organização/disseminação dos dados recolhidos e o conjunto de propostas projetuais integradas no programa de quatro Universidades locais conferem à investigação uma dimensão prática. Esta parece ser uma abordagem inovadora no contexto de Luanda, conciliando ferramentas da disciplina da arquitetura com métodos familiares às ciências sociais. O projeto adquire uma certa autonomia, no qual todos os envolvidos se tornam constituintes. O papel do investigador é potenciar caminhos para que a prática tenha lugar.

Foi selecionada uma casa específica, como caso de estudo. Ou melhor, duas casas ‘geminadas’. O processo faseado de construção tem sido registado, paralelamente ao crescimento da família e ao desenvolvimento da zona envolvente e da cidade. Isto tem permitido considerar que a estrutura social, muitas vezes, resulta do diálogo entre biografia e história. A história da casa é o resultado da história da família, e ao mesmo tempo relaciona-se com a história do bairro que, por sua vez, é recíproca à história da cidade, e por aí adiante... A pesquisa aborda a constante negociação entre privado e coletivo, entre o bairro informal e a cidade oficial.

A ampliação da casa tem vindo a ser feita gradualmente, desde 1986, quando a família se mudou para a Chicala. Inicialmente, situava-se junto à praia, mas o aterro foi distanciando a água da casa. Os vários volumes foram-se incrementando em torno de um quintal. Na condição atual, dada a densidade da ocupação do solo, o crescimento terá que ser vertical. Seguindo a vontade do dono da casa, propõe-se construir um refúgio para descansar, ler e trabalhar, por cima do anexo, ao fundo do quintal. Os elementos estruturais principais seriam duas reproduções do “Pensador”, símbolo de Angola.

A dimensão prática da investigação inclui uma série de instalações / ações “deslocadas”. Estas não são performances no seu pleno direito, mas sim meios que permitem recolher reações ao tópico da pesquisa. Esta vertente do trabalho tem contribuindo para fazer chegar os musseques de Luanda a contextos onde o seu desconhecimento é generalizado, ajudando a integrar os territórios informais no debate da arquitetura contemporânea.

Esta investigação prática em curso foi distinguida com o Prémio Távora – 7ª edição, atribuído pela Ordem dos Arquitectos – Secção Regional do Norte, através da proposta Exploratório Urbano da Chicala – Um Percurso Alternativo pela Topografia Pós-colonial de Luanda, Angola. Os resultados da viagem serão apresentados numa conferência no dia Mundial da Arquitectura, 1 de Outubro de 2012, na Câmara Municipal de Matosinhos. A imagem refere-se à cerimónia de encerramento de dois meses de atividades, durante a qual os estudantes foram homenageados pelo seu trabalho e a cidade convidada a celebrar a Chicala. O evento teve lugar no Elinga Teatro, em Luanda, e consistiu numa exposição de fotografia, projeção de filme, demonstração de capoeira, música ao vivo e djs. A Noite da Chicala visa exemplificar como os arquitetos podem contribuir para formar uma espécie de ‘memória coletiva’ de um lugar.