Luanda Por Terra, Água e Ar:
Uma viagem de investigação a partir do
Exploratório Urbano da Chicala

Discurso da Cerimónia do Prémio Távora – 7ª edição
Matosinhos, 1 de Outubro de 2012
Dia Mundial da Arquitectura

[1ª parte]
Introdução – Exploratório Urbano da Chicala

Boa noite,
Ex.mos organizadores e parceiros do Prémio Távora
Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos
Câmara Municipal de Matosinhos
Associação Casa da Arquitectura
Família do Arquitecto Távora
Axa Seguros
Ex.mos Membros do Juri
Minhas Senhoras e Meus Senhores

É uma grande honra estar aqui na vossa companhia. Pertenço à geração da FAUP que já não foi ensinada pelo Arquitecto Fernando Távora, mas recebi a sua herança através de tantos outros relatos que, aliados à educação dada pelos meus pais, me fazem partilhar com ele, desde sempre, o gosto por viajar.

Começo por agradecer ao Juri da 7ª edição, presidido pelo Historiador José Mattoso, e constituído pelo Engenheiro António Ferrão e pelos Arquitectos Walter Rossa, Ricardo Vieira de Melo e Nuno Grande, por me ter concedido o privilégio de estar aqui na qualidade de vencedor da edição de 2012.

Deixo uma palavra de incentivo a todos os colegas que também apresentaram candidaturas, ao dizer-lhes que esta foi a 6ª vez que me candidatei ao Prémio, sempre com uma proposta diferente (todas as edições anteriores, menos a 1ª por na altura ainda não ser membro da Ordem). Fica provado que a perseverança compensa.

A viagem que apresento aqui refere-se à minha terceira ida a Angola. A estadia teve a duração de 2 meses, entre 14 de Abril e 10 de Junho de 2012, sucedendo aos períodos de 1 mês que lá tinha passado em 2010 e 2011, como parte do Doutoramento que estou a desenvolver na The Sir John Cass Faculty of Art, Architecture & Design, na London Metropolitan University.

O programa de Doutoramento do qual faço parte, está orientado para temas contemporâneos, embebidos em contextos históricos complexos e situações de conflito político ou social. Dá ênfase à compreensão de aspectos que vão além do “projeto” ou da “história”. A este respeito, difere do protocolo de separação entre teoria e prática familiar à investigação arquitetónica convencional.

A metodologia que sigo na minha investigação procura relacionar aspectos da prática da arquitetura com outros níveis de riqueza inerentes a uma determinada situação concreta. Expandindo os limites da disciplina, invoco métodos característicos das ciências sociais, por exemplo. A pesqusa torna-se um veículo para entender o modo através do qual a arquitetura e a topografia urbana, em determinado contexto, criam condições para as práticas intrínsecas à condição humana. Projetar e fazer tornam-se meios fundamentais de análise, interpretação e argumentação, articulados em torno duma aproximação ética às condições encontradas no lugar de estudo. Como a cidade, tambem a investigação pode ser uma faculdade da prática da arquitectura.

O trabalho que estou a desenvolver centra-se no bairro da Chicala, um dos musseques mais centrais de Luanda, situado entre a ponta Sul da Ilha e a encosta da cidade, aos pés da fortaleza de S. Miguel. Este bairro foi maioritariamente construído por uma população deslocada durante os anos da guerra civil em Angola, entre 1975 e 2002. Atualmente, encontra-se num processo de dissolução, para dar lugar a um projeto imobiliário que não beneficiará a atual população (que será deslocada para as novas colónias de reassentamento, nas periferias da cidade).

Espera-se que este caso de estudo contribua para um melhor conhecimento sobre a transformação pós-colonial de Luanda. De forma mais abrangente, o projeto visa apresentar a grancidadeza dos territórios não-planeados, decifrando a sua estrutura, modo de funcionamento e contributo para a cidade.

Esta é uma abordagem distinta daquela preconizada pela maioria dos agentes de transformação urbana a atuar em Angola. Vou contar um episódio que aconteceu a determinada altura da minha viagem, que julgo transmitir a recusa generalizada em encontrar vestígios de vitalidade e prosperidade nos territórios informais. Ao conversar com alguém que trabalhava num dos novos edifícios envidraçados que começam a rodear o bairro da Chicala, ao longo da Avenida Dr. Agostinho Neto, disse-lhe que morava e trabalhava ali ao lado e a sua reação deixou-me estupefacto: “Eu não olho para esse bairro, prefiro ignorá-lo. Olho pelas janelas do outro lado, onde vejo edifícios novos, essa é a Luanda onde quero viver”. Durante a minha estadia, deparei-me constantemente com convicções parecidas com esta, o que começou a revelar um problema sério de exclusão social.

O trabalho que aqui apresento aponta numa direção mais simpática socialmente, sustentando que os musseques mais antigos amadureceram de forma frutífera para a vida urbana de Luanda. Ancorado num discurso pós-colonial que lê a cidade como um território híbrido, defendo que a distinção entre “formal” e “informal” é um conceito colonial que já não se aplica (ou não devia aplicar-se) ao metabolismo vívido e fulgurante de Luanda. Ao conhecer a cidade, estou cada vez mais convencido desta tese, não só por reconhecer aspectos de um urbanismo latente na Chicala e noutros bairros por onde vou passando, mas também por testemunhar um processo de regeneração urbana feito na ausência de qualquer plano diretor, muito menos tomando em atenção o valor do património edificado existente.

É neste contexto que vos mostro os acontecimentos da minha recente viagem de investigação. A apresentação que se segue está dividida em duas partes: um resumo de 30 minutos sobre as atividades do Exploratório Urbano da Chicala (uma série de práticas incidindo sobre questões sociais e espaciais do bairro) e um filme de 19 minutos, entitulado “Luanda por Terra, Água e Ar”, do qual falarei mais à frente.

Comecemos pelo Exploratório Urbano. O que vou mostrar é mais uma homenagem a todos aqueles que colaboraram no trabalho de campo, do que propriamente uma listagem de resultados. Começa por oferecer uma contextualização histórica da cidade, através de imagem e som. A imagem mostra uma sobreposição cronológica de mapas, que permitem perceber as constantes mudanças na topografia de Luanda, desde que há registos (essas mudanças têm a ver com o fenómeno natural das calemas - tempestades de mar que cobrem partes significativas da terra - e com os aterros introduzido pela tecnologia - que vai gradualmente conquistando terreno ao mar. Este diálogo e negociação entre terra e água é particularmente visível na costa e na Ilha do Cabo (a Chicala ocupa o interstício entre o Sul da Ilha e da Baía de Luanda). O som que irão começar por ouvir refere-se à gravação de conversas mais ou menos espontâneas com duas pessoas que, não só conhecem a cidade provavelmente melhor do que qualquer um de nós, como também representam os maiores apoios institucionais que tive durante a viagem, aos níveis académico e profissional. Iremos ouvir os testemunhos da Professora Isabel Martins (angolana de pais portugueses, Directora do Departamento de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto, com Doutoramento na FAUP, sob orientação do Professor Alexandre Alves Costa) e do Engenheiro Daniel Quintã (português nascido em Angola, sócio dos Grupos Iperforma e Soapro, empresas de arquitectura e engenharia sediadas no Porto e em Luanda). A eles (e a todos os que representam), agradeço terem feito desta uma viagem muito bem sucedida, para não dizer uma experiência absolutamente inesquecível. Não teria sido impossível fazer o que eu fiz em Angola sem apoios de tão elevado nível. Espero que esta apresentação faça justiça ao enorme agradecimento que pretende ser.

História Urbana
[introdução histórica à topografia de Luanda em video e audio. Link]

Duas Casas
[sobre as casas onde morei durante a viagem: “Casa de Garrafas” / Rua do Kuando Kubango “Jamaica” / Chicala 2; Sede da Soapro / Av. 4 de Fevereiro, nº 82 / Baía de Luanda]

1. Chicala
Passo a apresentar diretamente as duas casas onde morei durante a minha estadia. A primeira é a casa de um kamba, um amigo, conhecida como a “Casa de Garrafas”. Viver na Chicala exige uma certa adaptação, mas conhecer o bairro na totalidade do ciclo diário faz parte do método de investigação. Experimentar os hábitos e costumes locais é sem dúvida uma experiência importante e compensadora. (A imagem mostra a sala da casa, com uma solução de pavimento muito pouco ortodoxa: garrafas).

2. Marginal
Ao final de três semanas, surgiu o convite para mudar-me para um dos apartamentos da Soapro, na Marginal, num edifício modernista reabilitado e equipado com todas as regalias. Foi muito significativo viver as duas experiências simultaneamente, duas casas tão diferentes separadas apenas por um par de quilómetros. Acho que também foi importante para os meus camaradas portugueses, porque lhes levei imagens e histórias dos lugares desconhecidos por onde me aventurava. (na imagem, um dos nossos serões na varanda comum a 3 apartamentos).

3. Chicala
Algumas soluções usadas nas casas auto-construídas podem não fazer parte dos protocolos da indústria de construção, mas denotam uma criatividade que pode inspirar a disciplina da “arquitetura”. Qualquer objecto pode ganhar uma função diferente da original. A simbiose entre coisas e paredes, salas, quintais, acaba por definir uma coleção de situações típicas que me importa inventariar. Acredito que este pode ser um campo de ação sobre o qual temos muito a aprender.

4. Marginal
Do outro lado do Morro, com a Fortaleza de S. Miguel ao fundo, a janela do meu quarto situava-me entre diversas camadas de história. No primeiro plano, a mais recente obra-prima do espaço urbano de Luanda, quase concluída – a nova Baía viria a ser inaugurada dali a um par de meses, dias antes das eleições de 31 de Agosto, que reconduziram José Eduardo dos Santos a mais um mandato como Presidente de Angola.

Boas-vindas
[video e música sobre o a forma como fui recebido na Chicala]

Celebração!
[Sobre a “Festa dos Kambas”; retribuí esta afetividade com a organização de uma festa, partilhando o Prémio com aqueles que realmente dão sentido a este trabalho]

Conferências / Debates
[Porque esta não foi só uma viagem de celebração, foi sobretudo uma viagem de investigação]

Durante o período da viagem, participei em várias atividades de cárater público: aulas abertas em Universidades, debates e tertúlias em diversos locais. Isto permitiu trazer para a esfera pública, especialista ou não, as potencialidades de uma metodologia de trabalho participativa, capaz de consolidar um bairro de formação espontânea, através da consulta à população e do registo das condições existentes. Propunha um método que poderia ser aplicado noutros contextos, como uma estratégia de regeneração enraizada na cultura e em problemas locais.

Nas Universidades Agostinho Neto, Lusíada, Metodista e no Instituto Superior Politécnico Metropolitano, apresentei o programa do Exploratório Urbano, abordando também a recetividade e interesse que o trabalho despertara em diversos meios fora de Angola, desde a minha viagem anterior (sobretudo, a atribuição do Prémio Távora).

Tudo isso demonstrava que a natureza do trabalho que propunha também seria “arquitetura”. Assim, fui angariando estudantes interessados em colaborar. A adesão deixava boas perspetivas para um levantamento extenso do território da Chicala, o que trazia algum alento.

No entanto, os procedimentos próprios de cada Universidade, aliados ao complexo sistema burocrático dos organismos governamentais locais, comunais, provinciais, etc, atrasavam o início do trabalho de campo propriamente dito. Um processo moroso mas necessário. Nada que alguma paciência e, mais uma vez, muita perseverança, não resolvessem.

Através destas ações, espero ter oferecido um contributo para equipar os intervenientes com a imaginação, sensatez e generosidade fundamentais para que as suas práticas alcancem um melhor entendimento sobre os conflitos urbanos da capital de Angola.

Trabalho de campo
[Video e audio: testemunhos da Professora Isabel Martins e dois estudantes, sobre o trabalho de campo do Exploratório Urbano da Chicala];
[Video: Tio Nelito e Paulo Moreira iniciam a produção do arquivo físico do Observatório da Chicala]

O material produzido durante o trabalho de campo está a ser editado e, como sugeriu a Professora Isabel, será publicado de várias formas. Também nesse aspecto, esta viagem foi uma oportunidade para encontrar meios para fazê-lo. Por sugestão da própria Professora Isabel, redigi e apresentei uma candidatura de financiamento para um centro de investigação no Departamento de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto, em parceria com a London Met e o apoio de algumas instituições externas. No início do mês de Setembro recebi a resposta positiva.

O “Observatório da Chicala” será o legado institucional mais proeminente desta investigação, e a sua implementação já está a caminho. Consistirá na produção de vários materiais (livro, site e arquivo físico) sobre a história, topografia e cultura da Chicala e a sua relação com a cidade de Luanda. O “Observatório” opera em duas direções: por um lado, concretiza a identidade da Chicala como um lugar com uma história merecedora de respeito; por outro, cria uma espécie de manual de práticas participativas cujos métodos se inspiram naquilo a que Jane Jacobs chamou “Arquitetura Social” (passo a citar um excerto de 1961): “quando há pouco dinheiro para gastar em arquitetura, então certamente que maior imaginação aquitetónica será necessária. Os pontos de partida para edifícios modestos e imagens de cariz social emergirão do dia-a-dia da cidade à nossa volta”.

[Imagem: fotografia do Tio Nelito, artesão local, que já está a construir o arquivo físico, que será gerido por uma biblioteca local. Por convicção no sucesso do pedido de financiamento e graças ao Prémio, os trabalhos tiveram início ainda durante a minha viagem]

[Imagem: testemunho/agradecimento de estudante da UAN: “Antes porém agradeço a Deus-Todo-Poderoso por me ter dado esta alegria e disposição de encarar os meus objectivos, objectivos este que engrandecem os meus conhecimentos, sem esquecer os meus pais por terem me dado esta alegria de estar presente aqui no Mundo. Sem mais comentários agradeço ao Mundo inteiro em especial ao Arquitecto Paulo Moreira por ter disponibilizado o seu material para continuidade do trabalho de investigação da zona da Chicala para a cadeira de H.A.C.]

Disseminação

A disseminação faz parte duma estratégia de legitimação do projeto. Ai Wei Wei um dia ‘tuitou’: “se não está publicitado, é como se nunca tivesse acontecido”. Seguindo essa lógica, apresento uma seleção de tuites que fui lançando na internet durante a viagem, para que os meus seguidores acompanhassem as novidades em tempo real. Alguns ‘tuites’ estão em inglês porque a maioria dos meus seguidores estão fora de Portugal.

[www.twitter.com; @moreirapaulo_ ; #Tavora2012]

#Dia1 / 14 april 2012
(30 graus, chuva): “Alô, sr motorista, ja aterrei. Tem uma placa com o meu nome?” “Nao, tenho uma camisola do Benfica”

#Dia1 / 14 april 2012
A chuva a bater na cobertura de chapa faz imenso barulho. Mas a musica lá fora está tao alta que disfarça.

#Dia3 / 16 april 2012
BTW: 30-day mobile internet (5gb download) costs $80. These tweets are freakin’ expensive.

#Dia3 / 16 april 2012
Será um dia bem longo. Comecemos por um bom matabicho.

#Dia4 / 17 april 2012
Trabalhar em computador portatil e internet movel à luz da vela. Os paradoxos de #Luanda #Angola

#Dia6 / 19 april 2012
A sessão #1 na ULA correu muito bem. +-50 estudantes, 11 dos quais mostraram-se interessados em trabalhar no Exploratorio da #Chicala.

#Dia8 / 21 april 2012
Sorry for lack of news, my twitter + facebook accounts were inaccessible for a while, don’t know why!

#Dia9 / 22 april 2012
These kids do not cry, they scream! #Sunday #morning #Chicala #Luanda #Angola

#Dia10 / 23 april 2012
Breathe in, breathe out.

#Dia12 / 25 april 2012
Primeiro serão com luz em casa. (de gerador) #Luanda #Angola

#Dia14 / 27 april 2012
ELECTRICITY!!!!

#Dia15 / 28 april 2012
“Por agora, (...) a única resposta do arquitecto para o problema da cidade contemporânea parece ser ir viver para os musseques.” J. Figueira
#Dia19 / 2 maio 2012
Hoje apresento publicamente o meu trabalho no Clube Naval de #Luanda, às 19h.

#Dia20 / 3 maio 2012
Great feedback last night! 50 watched Casinha/Kubico for the first time and enjoyed it! Many questions, many books sold!

#Dia22 / 5 maio 2012
Artigo na revista do Sol sobre o meu trabalho (edições de #Moçambique e #Angola), por Aisha Rahim.

#Dia24 / 7 maio 2012
e as reuniões para marcar reuniões... #Luanda #Angola

#Dia25 / 8 maio 2012
Finally: Students in #Chicala! #Luanda

#Dia30 / 13 maio 2012
O visto foi prorrogado, fico em #Luanda mais umas semanas.

#Dia30 / 13 maio 2012
Very interesting debate at DW last Friday, with Claudia Gastrow, Sylvia Croese, Sílvia Leiria Viegas, Ricardo Cardoso and myself.

#Dia30 / 13 maio 2012
Terminou a 1a semana de trabalho de campo na #Chicala com 50+ estudantes da UAN, ULA e UMA. Um processo difícil mas compensador!

#Dia31 / 14 maio 2012
I counted 7 different languages at tonight’s live concert. None of them was English: PT, SP, FR, IT, Lingala, Crioulo, Kimbundu. #Chicala

#Dia39 / 22 maio 2012
Finalmente entreguei a candidatura conjunta para a formação do Observatório da Chicala, parceria UAN / The Cass, com apoio DW, Soapro e INTASA.

#Dia40 / 23 maio 2012
Thursday / morning: interview by RTP. afternoon: Lecture at Universidade Metropolitana de Angola (funny name!) #Luanda #Angola

#Dia43 / 26 maio 2012
...and after 6 intensive weeks in Luanda... a weekend off. #CaboLedo

#Dia45 / 28 maio 2012
New record: 16 riding the #kandongueiro, myself included! #Luanda

#Dia47 / 30 maio 2012
Isto contado ninguém acredita! #Luanda #Angola

#Dia47 / 30 maio 2012
Ok, here goes nothing: Today I flew over #Luanda by helicopter for 45 minutes. #amazing

#Dia55 / 7 junho 2012
It’s been very very difficult to access twitter. But it’s all good... I’ve been preparing the closing event of the #Tavora2012 trip.

#Dia58 / 10 junho 2012
/// The end /// 11.00 #Luanda > 18.45 #Porto /// #Tavora2012

[Video: entrevista à RTP]
Também houve uma boa cobertura do trabalho por parte de alguns meios de comunicação social em Luanda. Na imagem, vemos a reportagem da RTP, em pleno Mercado de Peixe da Chicala 1, conduzida pelo correspondente em Angola, Paulo Catarro.

A parte caricata desta imagem é que a reportagem nunca chegou a ser transmitida... Não sei qual o motivo, já tentei saber, mas nunca me explicaram. Foi pena, teria sido um motivo de orgulho para os estudantes e para as pessoas entrevistadas, e até uma oportunidade para difundir o Prémio Távora. Por agora, prefiro deixar a imagem em silêncio, se calhar passa melhor a mensagem.

[Video e audio: entrevista a vendedora de peixe, Mercado da Chicala]
Por sorte, eu entrevistei a vendedora e vou agora dar-lhe dar-lhe voz...

[Imagem: fotografia da apresentação na Metodista]
Esta é uma fotografia que recebi entretanto, e que me deixou bastante orgulhoso. As mamãs foram à Faculdade comentar o projecto. As últimas notícias dizem que o Governador Comunal da Ilha gostou muito da iniciativa e quer apostar na proposta. Não tenho mais pormenores para já, mas são boas notícias.

Encerramento

A Noite da Chicala foi a cerimónia pública de encerramento do Exploratório, na qual a cidade foi convidada a celebrar a cultura do bairro e os estudantes foram homenageados pelo seu trabalho. O programa incluíu uma exposição de fotografia de Paulino Damião, morador na Chicala e uma figura relevante da cultura angolana. O “Kota 50”, como é conhecido, tinha acompanhado as atividades do nosso trabalho de campo.
Houve a projeção de um filme sobre a viagem de 2011; seguida de uma demonstração de Capoeira pela Escola Abadá. Houve também um concerto com os famosos “Cabo-verdianos da Chicala”, durante o qual eu fiz uma performance ao vivo, assinando 60 e tal diplomas e chamando ao palco os grupos de estudantes, um a um.

A noite terminou com djs e bar até às tantas da manhã. Cerca de meio milhar de pessoas passaram pelo Elinga Teatro naquela noite.

[Video: o público podia levar uma fotografia para casa]

[Video: reportagem da RTP / TPA]
A RTP voltou a comparecer, mas desta vez não veio o Paulo Catarro. Peço que reparem no reporter da RTP. Aqui está ele de novo. Na verdade, é jornalista da TPA, televisão pública angolana... Só mudou de microfone. Achei interessante esta cumplicidade...

[Video: pessoas a apreciar a exposição]
A Noite da Chicala pode ser vista como um dispositivo que exemplifica como os arquitetos podem contribuir para formar uma espécie de memória coletiva de um lugar. Como arquitetos podemos traduzir eticamente a inteligência de uma certa comunidade. Ao trazer a Chicala para o Elinga Teatro, consegui com que muita gente que evita olhar para aquele bairro, visse quem são e aplaudisse o que fazem as pessoas que lá moram. Essa foi uma vitória.

Agradecimentos / Créditos
[Fim da 1ª parte]

[2ª parte]
Introdução – Luanda Por Terra Água e Ar

No filme Luanda por terra água e ar intersetam-se mundos aparentemente distantes. O discurso corrente descreve a forma urbana de Luanda como “duas cidades” entrelaçadas, recorrendo a uma divisão linear entre “pobres” e “ricos”, entre “musseque” e “cidade”. É certo que há um contraste bem visível, cada vez maior, entre as topografias auto-construídas e não.
Mas, no contexto de Luanda, os lugares urbanísticamente incompletos (por falta de infraestruturas: saneamento, eletricidade), não são habitados exclusivamente pelas chamadas classes baixas, pobres, não educadas, delinquentes, etc. Este filme ajuda a demonstrar que esse é um preconceito falso. A questão é mais ambígua, menos fácil de decifrar antes de conhecer a cultura local.

O filme apresenta histórias de vida de 5 cidadãos, moradores na Chicala. Todos, cada qual à sua maneira, encontraram o seu lugar no mundo. O Muamby é um estilista com uma carreira curta mas, até ver, bem sucedida. O Etona é um artista representado em dezenas de coleções privadas e institucionais - entrevistei-o entre exposições na Coreia do Sul e Londres. O Neves concilia a carreira militar com o gosto por livros de história, sobretudo focados na guerra pela independência. Está a investir numa livraia e biblioteca na sua terra de origem. O Nelo é um artista plástico e trabalha em produção cultural em várias áreas, desde o cinema à música, ao teatro e à instalação. A Bia é a única mulher entrevistada no filme, mas vale tanto como todos os homens. É enfermeira num hospital público e estudante universitária no período noturno. É mãe de 5 filhos (as duas mais velhas estudam no Brasil). Tem casas e lojas alugadas. Sempre que pode, vai à China comprar mercadorias para vender nos 3 mercados onde tem bancadas, cada qual com a sua trabalhadora assalariada.

O filme dá voz a estas personagens do dia-a-dia, percorrendo o contínuo urbano da cidade. Mostra, simultaneamente, imagens de lugares cuja memória já foi, está a ser, ou será apagada pela febre de “progresso”; ou então, mostra imagens lugares ainda sem memória, à espera de ter uma vida.

Vamos ver o descampado do antigo Mercado do Roque Santeiro, que já foi o maior mercado ao ar livre em África. Regressaremos ao Elinga Teatro, principal pólo cultural da cidade (não é por acaso que foi escolhido para receber a Noite da Chicala. O edifício situa-se na Baixa, construído por portugueses no século XIX. Está em vias de desaparecer depois da sua desclassificação como monumento histórico (poucas semanas antes da Noite da Chicala). Já na última semana de Setembro, as notícias confirmaram a fatalidade: o Elinga será demolido e dará lugar ao projecto imobiliário Elipark (um parque de estacionamento, escritórios e um hotel). Veremos a impressionante cidade-fantasma do Kilamba Kiaxi, a Sul de Luanda, cuja primeira fase deverá estar concluída em Dezembro deste ano. Este projeto megalómano, construído por uma empresa Chinesa, desenvolve-se ao longo de uma extensão de 1.000 hectares, num total de 710 edifícios e 20.000 apartamentos. Veremos os bairros de relocalização do Zango e do Panguila, onde têm sido realojadas milhares de famílias vindas das zonas mais centrais.

A leitura de Luanda nem sempre é fácil, muito menos comunicá-la a quem não a conhece. Espero que o filme sirva, pelo menos, para dar sentido às ideias que aqui partilhei. Convido-vos a rever o filme e outros materiais sobre o projeto, na exposição Luanda de Baixo P’ra Cima, parte do programa do ARQ OUT, a ter lugar na sede da Iperforma, no Freixo, entre 15 de Outubro de 2012 e 25 de Janeiro de 2013.

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