Regresso ao Passado
Do «Jardim dos Pequeninos» de Vila de João Belo
ao «Jardim-Escola Joaninha» do Xai-Xai
Opúsculo #21, Dafne (2009)

Dafne Editora

(...)

As fotografias antigas tornaram-se um instrumento fundamental para a minha viagem: decidi encenar as mesmas perspectivas, duas gerações mais tarde. O confronto das vistas «antes & depois» tornou-se muito revelador, permitindo identificar imediatamente alterações como a ampliação do edifício no lado Norte ou a mudança do logótipo e nome no pórtico do lado Sul. Mas apesar de tudo isso, o edifício parece ter permanecido impassível e imperturbável enquanto transformações políticas foram ocorrendo no território. O factor «tempo» é particularmente comovedor quando olhamos para o pujante crescimento da marrufeira plantada pela minha avó ainda o «Jardim dos Pequeninos» estava em construção.

(...)

Em 2000 as cheias deixaram a cidade isolada por mais de três meses, devido ao desabamento de estradas, caminhos-de-ferro e pontes. Muitos edifícios foram também severamente afectados, incluindo o hospital local. Por se situar na zona alta do Xai-Xai, a escola permaneceu intacta e foi decidido transformá-la em hospital improvisado, assim permanecendo por cerca de dois anos. O edifício provou ser flexível no uso e apropriação, mantendo o compromisso com a comunidade pretendido desde a sua fundação. Em 2003 o governo local arrendou o complexo a uma organização privada que reabriu a escola tal como eu tive oportunidade de a conhecer.

(...)

Actualmente, ao contrário do planeado, as salas «dos pequenos» e «dos grandes» funcionam como dormitórios de meninas e meninos, respectivamente, o que impede o seu uso como espaços de recreio e aprendizagem. Parece errado que a actividade principal no coração do jardim-de-infância seja dormir. Para além disto, a porta de correr deixou de funcionar devido à falta de manutenção: «Uma boa notícia», congratulou-se a Dona Maria Antónia, mas a flexibilidade perdeu-se. A nova configuração do espaço central fez deslocar as actividades diárias para a zona estreita e comprida inicialmente usada como cantina. As crianças sentam-se frente-a-frente ao longo das paredes e cantam, batem palmas, gritam, riem ou choram. Há poucas possibilidades para experimentar diferentes organizações do espaço.

(...)

Parece óbvio que albergar cento e vinte crianças numa escola planeada para acomodar setenta e cinto resulta num ensino mais difícil. Ou será que a configuração espacial não interfere na qualidade do ensino e na disponibilidade para aprender? Será que meninos e meninas conseguem concentrar-se num escritório-sala-de-aula, usando um «sobreplaneado» banco fixo como mesa e tendo que girar as cabeças para olhar para o quadro? Há crianças também a aprender no coberto acrescentado nas traseiras do edifício original. Chamo-lhe o coberto-sala-de-aula. Temos então o nicho-do-porteiro-sala-de-aula, a garagem-sala-de-aula, o escritório-sala-de-aula, o coberto-sala-de-aula. É estranho que os antigos sanitários dos alunos não tenham sido ainda convertidos em espaços para o ensino, já que não se encontram em funcionamento!

(...)