What type of city is this?
not published

Versão Portuguesa abaixo

It seems like a fair denomination for places like Cova da Moura still has not been found. Informal city, illegal, unplanned, resort systematically to a kind of opposition to a supposedly more credible model, formal, legal, planned. Could there be a way of describing this type of phenomenon for what it is, without prefixes of negation? A way that authenticates this way of making a city as a possible alternative, without a pejorative and geographically located connotation, associated with slum, favela or musseque?

The character of neighborhoods like Cova da Moura is, on various levels, similar to that which we call “historic centers”, that are frequently considered patrimony to be preserved – even having been structured with no “plan of master” (masterplan?). This classification is not questioned, but why not include Cova da Moura in the same category? A possible justification could have to do with its relatively recent formation: the post-1974 period, associated with migratory movements flowing from decolonization and subsequent conflict in the African ex-colonies. The impact of this movement had on the main urban agglomerations of the colonized and the colonizer are part of the history of cities and as such should be studied.

By virtue of the fact it is located in Portugal, Cova da Moura is a particular case of urban miscegenation. The majority of its residents originate from all the ex-colonies, which increases proportionally the cultural diversity characteristic of neighborhoods of Luanda and Maputo, for example.

The spatial organization of the neighborhood comes from the close relationships of residents. As new residents arrived and built their houses close to family and friends, they created specific groupings (Cape Verdeans from Santo Antão, Cape Verdeans from Santiago, for example) that came together to enjoy typical cuisine from their region, sing their traditional songs, etc. This contributed towards the formation of a socially diverse and culturally rich topography in Alto da Cova da Moura.

Beyond similarities with the countries of origin, buildings equally denote local influences: materials (ceramic roof tile and hollow bricks instead of corrugated sheets and cement blocks, widely used in African self-built neighborhoods) and “styles” (the majority of residents work in the building industry, therefore there is a fusion between African and European solutions).

But in spite of the generalized satisfaction of its residents, and the progressive densification and improvement of infrastructures, housing, commerce and collective services (schools, library, Residents’ Committee), the neighborhood is under risk of disappearing. During these processes, it is important to study the social and urban structure of Cova da Moura, as a contribution to public understanding and its preservation – for this reason, the work undertaken by the Universities for the competition of the Lisbon Architecture Triennale is an important legacy and some of the projects would represent valid alternatives to legitimize the neighborhood, if they were to be implemented.

Even without this guarantee, it is hoped that the exercise has served to empower the residents themselves in setting out arguments for the future of the region. In July 2011, a session to better explain the new Masterplan announced the demolition of 61% of buildings, “all the annexes and single-storey buildings”.(1) But residents disagree with the strategy proposed by architect Vasco da Cunha, winner of the International Public Competition for the Acquisition of Services to Elaborate a Masterplan for Cova da Moura. According to the Residents’ Committee, “Vasco da Cunha had to present an improvement plan, a demolition plan and an infrastructure plan. Infrastructure he did not present, neither improvement, and for demolitions he presents 61%. We can only give our opinion and our opinion is that we are against this.”(2)

It remains to be seen in what way this opinion will be taken into account, as the experience of the Public Competition taught some lessons: “we managed to be part of the International Competition for the Masterplan, but of the five jury members, three were from the City of Amadora, one from the Residents Committee and one from the IHRU [Institute of Housing and Urban Rehabilitation]. The rule was that the majority wins, and these three that the City Hall picked had the same scoring in all of the categories...”.(3) In spite of the discontent in relation to the process and the controversy associated with the explanation sessions on the future Masterplan, it is a positive thing that the project was publicly debated, together with the community.(4) Perhaps this reciprocity had been lacking in the process of the Triennale competition.

To conclude, in spite of the problems inherent to places like this, the positive points in the system seem to outweigh the negative ones. Latent transformation requires a more socially sympathetic strategy that actively involves residents in the destiny of their homes. It is hoped that the projects presented here can contribute to the cultural and political self-empowerment of the people for whom (and with whom?) they were designed.

Footnotes:
1-Godelieve Meersschaert, representative of the Residents’ Committee of Cova da Moura, interviewed by Paulo Moreira and Pedro Campos Costa (22/07/2011).
2-Ibid.
3-Ibid.
4-Residents and the CNPD [National Data Protection Commission] disagree with the requirements for assistance in the explanation sessions (identification card/passport and tax ID number) because they allow for linking of personal data. See: Semanário Sol (22/07/2011).

---
Versão Portuguesa:
Que tipo de cidade é este?

Parece não ter sido encontrada ainda uma denominação justa para lugares como a Cova da Moura. Cidade informal, ilegal, não-planeada, remete sistematicamente para uma espécie de oposição a um modelo supostamente mais credível, formal, legal, planeado. Haverá maneira de descrever este tipo de fenómeno pelo que é, sem prefixos de negação? Um modo que autentique este modo de fazer cidade como alternativa possível, sem a carga pejorativa e/ou geograficamente localizada associada a slum, favela ou musseque?

O caráter de bairros como a Cova da Moura é, em vários níveis, semelhante àquilo a que chamamos “centros históricos”, que são frequentemente considerados património a ser preservado – mesmo tendo sido estruturados sem “plano de mestre” (masterplan?). Não se questiona essa classificação, mas por que não incluir a Cova da Moura na mesma categoria? Uma justificação possível poderá ter a ver com a sua relativamente recente formação: o período pós-1974, associado aos movimentos migratórios decorrentes da descolonização e consequente conflito armado nas ex-colónias africanas. O impacto que este movimento teve nos principais aglomerados urbanos dos países colonizados e colonizador faz parte da história das cidades e portanto deve ser estudado.

Pelo facto de situar-se em Portugal, a Cova da Moura é um caso particular de miscegenação urbana. Os seus habitantes são maioritariamente oriundos de todas as ex-colónias, o que aumenta proporcionalmente a diversidade cultural característica dos bairros de Luanda e Maputo, por exemplo.

A organização espacial do bairro é o resultado das relações de proximidade dos residentes. À medida que novos habitantes chegavam e construiam as suas casas perto de familiares e amigos, iam-se criando núcleos específicos (cabo-verdianos de Santo Antão, cabo-verdianos de Santiago, por exemplo) que se juntavam para saborear a gastronomia típica da sua região, cantar as suas músicas tradicionais, etc. Isto contribiu para que se fosse formando no Alto da Cova da Moura uma topografia socialmente diversa e culturalmente rica.

Para além das semelhanças com as terras de origem, as edificações denotam igualmente influências locais: materiais (telha e tijolo vazado em vez de chapa e bloco de cimento, largamente utilizados nos bairros de auto-construção das cidades africanas) e “estilos” (grande parte dos habitantes trabalha na construção civil, por isso há uma fusão entre soluções africanas e europeias).

Mas apesar da satisfação generalizada dos seus habitantes, da progressiva densificação e melhoramento de infra-estruturas, habitação, comércio e equipamentos coletivos (escola, biblioteca, comissão de moradores), o bairro corre o risco de desaparecer. Durante o processo, importa estudar a estrutura social e urbana da Cova da Moura, como contributo para a sua compreensão e preservação – nesse sentido, o trabalho realizado pelas Universidades a propósito do concurso da Trienal de Arquitectura de Lisboa é um importante legado e alguns dos projetos representariam alternativas válidas para a legitimação do bairro, caso fossem implementados.

Mesmo sem essa garantia, espera-se que o exercício tenha servido para a auto-capacitação dos moradores na argumentação sobre o futuro da zona. Em Julho de 2011, a sessão de esclarecimento do Plano de Pormenor anunciava a demolição de 61% das construções, “todos os anexos e edifícios de piso único”.(1) Mas os moradores discordam da estratégia proposta pelo arquiteto Vasco da Cunha, vencedor do Concurso Público Internacional para Aquisição dos Serviços de Elaboração do Plano de Pormenor da Cova da Moura. Segundo a representante da Comissão de Moradores, “Vasco da Cunha tinha que apresentar um plano de qualificação, um plano de infraestrutura e um plano de demolições. Infraestrutura, não apresentou, qualificação também não apresentou e nas demolições apresenta 61%. Só que nós podemos dar opinião e a nossa opinião é que não estamos de acordo.”(2)

Resta saber em que medida é que essa opinião será tida em conta, já que a experiência do concurso Público trouxe algumas lições: “conseguimos fazer parte do Concurso Internacional para o Plano de Pormenor, mas dos cinco elementos do júri, três eram da Câmara Municipal da Amadora, um da Comissão de Moradores e outro do IHRU [Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana]. A regra foi que a maioria ganha, e esses três que a Câmara indicou tinham a mesma pontuação em todas as categorias...”.(3) Apesar do descontentamento em relação ao processo e da polémica associada às sessões de esclarecimento do futuro Plano de Pormenor, é um facto positivo discutir-se o projeto publicamente, junto da comunidade.(4) Talvez tenha faltado essa reciprocidade no processo do concurso da Trienal.

Concluindo, apesar dos problemas inerentes a lugares como este, trata-se de um sistema onde os pontos positivos parecem superar os aspetos negativos. A transformação latente requere uma estratégia mais simpática socialmente, que envolva ativamente a população no destino das suas casas. Espera-se que os projetos aqui apresentados possam contribuir para o empoderamento cultural e político das pessoas para as quais (e com as quais?) foram desenhados.

Notas:
1-Godelieve Meersschaert, representante da Comissão de Moradores da Cova da Moura, entrevistada por Paulo Moreira e Pedro Campos Costa (22/07/2011).
2-Ibid.
3-Ibid.
4-Os moradores e a CNPD [Comissão Nacional de Proteção de Dados]
discordaram dos requisitos para assistência nas sessões de esclarecimento (cartão de cidadão/passaporte e número de identificação fiscal), por permitir cruzamento de dados pessoais. Ver: Semanário Sol (22/07/2011).

translation: Janet Gunter